O interesse da China na África
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O interesse da China na África



A proximidade dos chineses com o continente africano não vem de agora. É claro que, num mundo em que produção e consumo acontecem de forma acelerada, os recursos naturais existentes na África são vistos como muito bons olhos para sustentar o incessante ritmo de crescimento da economia do Dragão Asiático.

No decorrer da última década esses laços se estreitaram. Políticas de cooperação foram firmadas visando atender os interesses de ambos os lados. A necessidade chinesa por matérias-primas e o anseio africano de fomentar seu desenvolvimento, abandonando de vez os tempos de atraso decorrentes de séculos de expropriação em que não recebia nada em troca por suas riquezas, fortalecem uma parceria que tem incomodado muita gente grande.

Como nem tudo é perfeito, esse intercâmbio ainda acontece de forma desigual. Enquanto a China importa maciças quantidades de bens primários, como petróleo e gás natural, as nações africanas recebem máquinas e equipamentos. Mas isso não basta. Mesmo com todas diferenças étnicas e culturais (desde quando os europeus tinham afinidades com os nativos que tanto consideravam inferiores?), tudo é uma questão de negócios.

E é justamente por não querer entrar em desvantagem, calejados por tanta falsa cortesia ou pela dor do mais puro açoite, o grande desejo dos países africanos é que ocorram duas coisas, tanto simples quanto básicas: transferência de conhecimento e pesados investimentos em infraestrutura.

Reforçando tudo o que disse acima, encontrei uma interessante matéria publicada no portal Deustche Welle que ilustra de forma bem elucidativa essa relação de reciprocidade entre africanos e asiáticos.


África busca estratégia para parceria mais vantajosa com a China

Chineses anunciam 20 bilhões de dólares em investimentos na África, reafirmando interesse nas matérias-primas do continente. Africanos precisam definir quais vantagens querem da parceria, como transferência de know how.

Gigantescas reservas de alumínio e de minério de ferro ainda repousam debaixo da terra em Guiné, no oeste africano. Os parcos recursos e a falta de infraestrutura impedem o país de explorar melhor suas matérias-primas. Os chineses estão mudando esse quadro, segundo Amara Camara, embaixador da Guiné na França.

"A China é um grande parceiro nosso, que nos acompanha em nossos projetos de mineração", explicou Camara em entrevista à Deutsche Welle. Os chineses também estão construindo uma usina hidrelétrica em Kaleta que com suas três poderosas turbinas deverá resolver os problemas de eletricidade do país a partir de 2015.

Guiné é apenas um exemplo da participação chinesa em diversas áreas na África. Já há algum tempo, há engenheiros chineses em Angola, África do Sul e Nigéria. Também em regiões remotas do continente eles estão construindo estradas e barragens e abrindo túneis em minas. Obras estas financiadas com recursos de Pequim.

Combustível para as máquinas

O especialista em economia africana e ex-primeiro-ministro da República Centro-Africana Martin Ziguélé não se surpreende com a ambição chinesa de duplicar seus investimentos na África. Novas obras de infraestrutura e empreendimentos econômicos no continente deverão receber 20 bilhões de euros de Pequim nos próximos três anos. Segundo ele, a China está atrás de matérias-primas e de mercados para sua produção.

Ziguélé destaca que, como a economia chinesa anda bastante aquecida, ela precisa de combustível novo para continuar funcionando, como uma máquina a vapor. "Por isso os chineses estão se transferindo para a África, em busca de matérias-primas", avalia.

É exatamente isso que vem preocupando muitos africanos. Críticos afirmam que, antes de mais nada, a China está interessada na matéria-prima, e não em um verdadeiro crescimento econômico do continente. E, para crescer, a África precisaria mais do que exportar minérios, petróleo e diamantes.

Ziguelé afirma que o verdadeiro desafio dos africanos é promover a manufatura deste material e a exportação dos produtos prontos. "Primeiramente, é necessária a transferência do conhecimento, para que possa existir uma classe média na África e que seja o motor desse desenvolvimento econômico", diz o especialista, concluindo que só assim é possível haver um crescimento a longo prazo.

Matéria-prima x know how

Durante a Cúpula China-África, em Pequim, o presidente chinês, Hu Jintao, anunciou que seu país tem sim essa preocupação. Segundo ele, centenas de enfermeiros e profissionais africanos de outras áreas receberão qualificação. Também serão distribuídas 18 mil bolsas para estudantes africanos. Críticos, no entanto, afirmam que com isso Pequim pretende assegurar sua influência e seu poder sobre a futura elite, a fim de manter alimentada sua fome por matérias-primas.

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, pediu cautela em seu pronunciamento na cúpula. "A experiência com as relações econômicas com a Europa nos ensina isso", afirmou Zuma. Segundo ele, não se pode repetir os erros cometidos no período colonial, pois relações comerciais desiguais não serão toleráveis por muito tempo.

Por isso faz-se finalmente necessária uma verdadeira estratégia dos países africanos frente à China, afirma o cientista político senegalês Alioune Badara Fall. "Não se pode acusar os chineses de terem construído uma relação com a África", diz Fall. Mas os países africanos precisariam desenvolver uma estratégia para lucrar a partir destes créditos e investimentos, sem precisarem "vender a alma" para isso.

"Como deve ser tal estratégia? De qualquer maneira os governos africanos precisariam pressionar para que a China não apenas explore matéria-prima, mas também invista fortemente na indústria da manufatura", diz Fall.

Aumento da autoconfiança

Amara Camara aposta na hidrelétrica de Kaleta, que deve ficar pronta em 2015. Com a eletricidade que será gerada, Guiné conseguirá finalmente produzir ela mesma alumínio, em vez de apenas enviar bauxita para terras chinesas. Uma das perguntas é se a China permitirá isso. "Não vivemos mais nos anos 1960. A África está na situação de ela mesma decidir como quer investir seu dinheiro", defende Camara. Ele ressalta que, como qualquer outro país, a China corre atrás de seus interesses. "Mas esses interesses também precisam estar em concordância com os nossos".

Autores: Ibrahim Tounkara, Ebinda Abilinda (msb)

Revisão: Roselaine Wandscheer

http://www.dw.de/dw/article/0,,16116333,00.html





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